domingo, abril 22, 2018

“O Mecanismo”. A série brasileira da Netflix leva a Operação Lava Jato para a televisão

foto @Pedro Saad/Netflix
“O Mecanismo”. Este Brasil na TV é ficção ou realidade? Na série de José Padilha o alvo perpetua-se. É o caso "Lava Jato" na TV, mas não é só, e tem dado audiências e polémica. Está disponível na Netflix.

por: André Almeida Santos, Observador.pt

O mecanismo. O mecanismo? O mecanismo! Perdoem a repetição, mas é mais ou menos esta a sequência com que Marco Ruffo (Selton Mello) decifra — precisamente — o mecanismo que está a tentar derrubar na série criada por José Padilha para a Netflix e que se estreou no passado dia 23 de março. A adaptação do livro de Vladimir Netto, Lava Jato – O Juiz Sergio Moro e os Bastidores da Operação que Abalou o Brasil, surgiu num momento oportuno no Brasil e causou sururu no país. Questionou-se realidade com ficção, acusou-se a liberdade criativa da série e até houve manifestações de boicote ao serviço de streaming.

Em tempos de fake news, é natural que o público, cronistas, pensadores e políticos tenham, por vezes, dificuldades em lidar com essa coisa chamada ficção. Principalmente se é um produto televisivo e se é transmitido a uma escala global. Por mais inspiração que “O Mecanismo” absorva do que aconteceu no caso Lava Jato, pela própria tangibilidade com a realidade e o seu oportunismo ou o pouco esforço em disfarçar alguns nomes de personagens — como Ricardo Brecht (Emílio Orciollo Netto)/Marcelo Odebrecht, Samuel Themes (Tonio Carvalho)/Michel Temer ou nomes de empresas como Petrobrasil/Petrobras e Grupo OAS que vira OSA na série — isto é, de facto, ficção.

Mas o que é “O Mecanismo” e porque é que vale a pena ver? Será que está ao nível de outras séries fora do contexto norte-americano e anglo-saxónico que têm estreado nos últimos meses na Netflix, como “Dark” ou “A Casa de Papel”? Uma coisa pode-se avançar já: se a criação de José Padilha ainda está na listinha de coisas para ver, pare já o que está a fazer [...] e avance para a série brasileira e perceba as razões de todo o ruído que se fez em volta da sua estreia.

O mecanismo

Se é para explicar algo que é pouco claro, o melhor é dar logo tudo. Uma das razões para “O Mecanismo” funcionar bem no imediato passa por enfiar o dito mecanismo no enredo ao início e meter o espectador numa situação de total desarme. Isso acontece nos primeiros minutos da série, quando Marco Ruffo decide que é hora de sujar as mãos e agarrar a corrupção pelos cornos. E fica óbvio de que o tal mecanismo é um sinónimo de corrupção e uma forma do sistema funcionar. Está em todo o lado.

Inclusive na polícia. A demora de Marco Ruffo em avançar para o caso acontece pelos bloqueios à sua volta. Ele quer fazer o seu trabalho de inspetor policial, mas o mecanismo está tão entranhado no funcionalismo de qualquer instituição brasileira que o jogo começa logo viciado. No fundo, o que Padilha faz é comprimir as regras sugeridas por “The Wire”, a série de David Simon para a HBO, e desmontar um sistema a partir das teias de corrupção que chegam à polícia/justiça e a impossibilidade, ou dificuldade, de qualquer movimento de ataque.
“Lava Jato – O Juiz Sergio Moro e os Bastidores da Operação que Abalou o Brasil”;
o livro de Vladimir Netto que inspirou “O Mecanismo”
Num jogo com peças em movimento, Padilha quis explorar a luta contra uma malha de corrupção tão interligada. A primeira peça a cair é Marco Ruffo, o indivíduo que quer deitar tudo abaixo, o “bom” da pintura inicial e que é imediatamente derrotado pela força com que o mecanismo cai em si, no seu trabalho, investigação, na sua vida familiar. O primeiro episódio apresenta um mártir e, depressa, também diz que todas as batalhas precisam dos seus mártires, que a posteriori serão transformados em heróis. Marco Ruffo, independentemente do que acontece a seguir, é o herói que um enredo destes precisa para mostrar como o mecanismo funciona.

O mecanismo?

Com Ruffo fora do palco, Caroline Abras (Verena Cardoni) entra para mostrar que é possível. Começa por atacar um dos inimigos de Ruffo, Roberto Ibrahim (Enrique Diaz), e rapidamente entram novos fatores dentro de “O Mecanismo”. No primeiro episódio percebe-se a intenção de desmantelar a corrupção, a partir do segundo trabalha-se a sua escala. Numa questão de cenas começa-se logo a falar de Petrobrasil/Petrobras e a criação de Padilha abre para as suas verdadeiras intenções: explorar o caso “Lava Jato” com sotaque de thriller colado à ideia de um roubo cuja localização não é um banco, ou a casa da moeda, mas um país inteiro.

Só que aqui seguem-se as regras normais. O espectador [...] fica sempre do lado da polícia/justiça. [...] “O Mecanismo” vem com as intenções de expor exatamente o mesmo, com o sentimento justiceiro certo, só que explora o código normal do thriller.

[...] A saga policial que se instala no segundo episódio de “O Mecanismo” é uma correria bem sintetizada de como apanhar os maus num jeito muito sul-americano. Monta-se uma equipa, olham-se para papéis, descobrem-se nomes, desenham-se setinhas, fazem-se escutas e entra-se em casa de supostos culpados com mandatos. O que acaba por ter alguma graça em “O Mecanismo” é que os motivos para descobrir a carapuça de alguns dos arguidos são descobertos pela forma básica como fazem alguma da trafulhice. E por básico entenda-se: a corrupção no contexto mostra-se tão fácil que nem é preciso entrar em grandes esquemas para a encobrir. E é mais ou menos aqui que o Brasil de “O Mecanismo” faz lembrar um bocadinho Portugal: como se os portugueses tivessem lá deixado uma semente de corrupção que foi a génese de tudo. A diferença? Uma questão de proporção e escala.

O mecanismo!

No terceiro ato surge um herói encapuzado. O mártir afinal não é bem mártir e Ruffo entende que para deitar o mecanismo abaixo é essencial agir sem as amarras de quem voluntária ou involuntariamente está dentro do sistema. Mas agora, o mesmo Ruffo tem capa de herói e a dada altura tem um “momento eureka!” sobre o funcionamento de tudo.

É um arranjo de Padilha para tornar tangível o funcionamento da coisa. Ruffo tem um problema no esgoto da casa. Chama o serviço responsável para tratar desses assuntos na cidade, mas o trabalho vai demorar mais tempo do que o desejado. Contacta outra pessoa, cujo nome foi dado pela empresa anterior, e a coisa parece que se pode resolver mais fácil e rapidamente. Pergunta o preço e acha exagerado. E começa a percorrer com o seu contacto o custo das coisas (material, mão-de-obra, etc.). Percebe que o valor que lhe está a ser cobrado não faz qualquer sentido. É exagerado. Grande parte do dinheiro não irá para custos nem para a mão-de-obra, mas para o tipo que passou o contacto. A lógica parece natural, até justificada, e Ruffo dá o salto dessa lógica para o funcionamento do país. Desenha as coisas num quadro e tudo.

Aí se dá a segunda derrota do protagonista. Algo que ele sabia e que ainda não tinha sido exposto de forma tão clara: o mecanismo está em todo o lado e é impossível desmontá-lo. Podem-se tirar peças mas serão trocadas por outras. É algo intrínseco ao funcionamento daquele Brasil e que funciona a todos os níveis da sociedade, favorecendo os mesmos ou, então, os que integram essa lógica. [...].

Bónus

O mecanismo resiste, o mecanismo está sempre tentando parar a Lava Jato
Ler a entrevista do Vladimir Neto na íntegra
Jornalista e autor do livro sobre o caso Lava Jato que inspirou a série “Mecanismo”, Vladimir Neto (44) diz ao Observador.pt que a pacificação da sociedade brasileira só se vai verificar após as presidenciais de 2018.

sábado, abril 21, 2018

Viktor Orekhov: a história real de um KGBista bom

Na década de 1970, o capitão do KGB, Viktor Orekhov, durante quase 2 anos, arriscando a sua própria vida, tentava ajudar os dissidentes soviéticos, os avisando sobre buscas, prisões, implantação de escutas. Foi descoberto, condenado aos 8 anos da prisão severa, e mais tarde, obrigado à emigrar.

«Eu era um comunista ferrenho»

Viktor Orekhov nasceu na Ucrânia, na região de Sumy. Serviu na tropa soviética de guarda-fronteira (subordinada ao KGB), foi recrutado pelo KGB e formado na sua escola superior, especializando-se em língua turca. Como conta ele próprio, era um “comunista ferrenho”, seguro que as “amanhas cantantes” estavam muito próximas.

O seu avô materno era chefe do primeiro kolkhoze na localidade de Orekhovo na região ucraniana de Sumy. Era uma pessoa respeitada, tinha 8 filhos, três deles morreram no decorrer do Holodomor de 1932-33. Já adulto, Viktor soube que o seu avô paterno era um kurkul (kulak), o poder soviético expropriou a sua casa, terra, animais e o deportou, junto com a família, para Sibéria. Apenas o seu pai voltou à Ucrânia. Os seus tios maternos eram militares soviéticos. Eles lhe transmitiram a fé comunista: tudo por que URSS passava eram “dificuldades momentâneas”. Em breve, conseguiremos erguer o comunismo... principalmente se não existirem os inimigos...
Viktor Orekhov, jovem oficial da 5ª Direção do KGB 
Viktor se alistou no KGB para lutar contra os dissidentes, pois eles estavam, constantemente, disseminar os rumores falsos. Ora diziam e escreviam no samizdat que a safra de repolho ficou por colher, perdida na neve, que trigo não colhido foi queimado. Orekhov foi investigar e soube que tudo realmente era verdade, o caso do repolho, e do trigo... Então, afinal, samizdat diz a verdade? Porque ficou calada a imprensa estatal? Oficial também via que os dissidentes eram destemidos, prontos para tudo pela verdade. Mas continuava à trabalhar. Colhia as informações através da sua rede dos agentes e informadores, impunha as conversas de “profilaxia” aos camaradas “vacilantes”, participava nas rusgas e buscas.  

Numa das buscas ao apartamento, o capitão reparou no caderno com os “versos anti-soviéticos” (foi avisado com antecedência por um informador), o folheou e devolveu ao autor, pasmado ao seu lado, mudo e esbranquiçado: «Não precisamos disso, pode guardar». Naquele momento ele decidiu ajudar aos dissidentes.

... De seguida, nos apartamentos, onde KGB planeava uma busca tocava o telefone. Uma voz desconhecida e propositadamente destorcida avisava: se livre das evidências comprometedoras, amanhã elas virão. Os psiquiatras soviéticos, que o avaliaram no tristemente conhecido Instituto Serbsky, nas vésperas da sua primeira condenação, acharam Orekhov mentalmente saudável, apenas observaram “algum infantilismo, manifestado no desejo de uma sinceridade espiritual”.

Divulgação de segredos de Estado

O dissidente moscovita Mark Morozov era engenheiro matemático, tinha 45 anos e se dedicava à divulgação do livro “Arquipélago GULAG” do Alexander Soljenitsin. KGB seguia todos os passos do Mark, escutava ilegalmente o seu telefone, matemático foi alvo de um “processo de verificação operativa” (DOP).

Detido na saída do seu apartamento e levado ao KGB, Mark Morozov conheceu Viktor Orekhov. Na conversa que se seguia, o capitão admitiu, que sim, o telefone do dissidente estava sob escuta. Mais tarde este episódio será incriminado ao Orekhov como “divulgação de segredos de Estado”.
Orekhov e Morozov, final da década de 1970
Os dois começaram se encontrar de uma forma amigável: Morozov fornecia ao Orekhov literatura dissidente e dos direitos humanos. Os dois conversavam. Orekhov fazia apontamentos, ele acreditava que poderia elaborar a caracterização objetiva do movimento dissidente. Acreditava que poderia convencer a mais alta liderança do KGB e do Estado que os dissidentes não são inimigos do povo, que eles querem o bem da URSS.

Dos materiais do processo criminal

…Em dezembro de 1976, Orekhov avisou Morozov sobre as buscas planeadas; no inverno de 1977 — divulgou os dados de um informador do KGB; na primavera de 1978 — os dados de um outro informador do KGB.

Em janeiro de 1977 Orekhov fez aviso sobre a detenção planeada; em fevereiro de 1977 — sobre execução de ações especiais operativas e técnicas e sobre as buscas planeadas.

Investigação oficial

A futura esposa do Orekhov, Nádia, frequentava um grupo dissidente moscovita, de orientação social-democrata. Um dos membros do grupo, sindicalista Vladimir “Ded” Skvirsky (1930-1993) incumbiu Nádia conhecer um KGBista que possuía e partilhava a informação privilegiada sobre ações repressivas contra os dissidentes.

Nádia considerava que todos os funcionários do KGB eram traiçoeiros, Viktor explicava que no KGB trabalham pessoas diferentes: há conscientes, que se refugiam na bebida, outros até provocam a úlcera no estômago, para poder sair, alegando problemas de saúde; há executores indiferentes; há carreiristas que apenas pretendem subir na careira... Há desesperados... É precisa espreitar a alma de cada um para entender...

Eles se encontraram novamente duas vezes – foram ao cinema. Uma vez ela perguntou com um sorriso: se ele realmente era do KGB, se não era apenas um trote. Orekhov lhe mostrou o seu cartão de identidade real e dois falsos, que usava com mais frequência. Um dos documentos atestava que ele era funcionário de algum instituto de pesquisa científica, outro dizia que era investigador da polícia criminal moscovita – MUR. Os dois se separaram, sem suspeitar que a separação duraria 13 anos.
Viktor e Nádia Orekhov, fim da década de 1990
…Orekhov foi chamado de férias uma semana antes da data certa. Num dos corredores do serviço viu o grupo de colegas, que alegadamente iriam ao evento “T” (colocação de escuta) em casa do Vladimir Skvirsky. Viktor percebeu que Nádia, juntamente com muita boa gente, seria atingida. Correu fora do serviço e ligou do telefone público (“orelhão”) ao seu contato – Morozov, para avisar que Skvirsky terá “uma boa ventilação”, já amanha.

Passando alguns dias, Viktor Orekhov percebeu que nunca houve o tal evento “T”. Ele foi alvo de uma informação falsa. O objetivo era de seguir o seu caminho e verificar as suas ações. Isso significava ele estava sob investigação.

Em 1 de novembro de 1977 foi detido o seu informador – matemático Mark Morozov. Dissidente foi acusado de “agitação e propaganda anti-soviética” (Art. № 70 do CP da Rússia soviética), o seu crime era a divulgação de panfletos e de samizdat. Após a detenção, Morozov rapidamente foi quebrado, entregando tudo e todos: os seus amigos, conhecidos, familiares e mesmo os membros mais próximos da família. Naturalmente, ele contou tudo o que à respeito do capitão Orekhov.

…Orekhov foi detido em agosto de 1978, julgado pelo tribunal militar à porta fechada e condenado aos 8 anos de prisão efetiva (Art. № 260 do CP da Rússia soviética: “abuso de poder e negligência de serviço”). Cumpriu a pena na colónia penal especial, para os ex-funcionários da polícia, KGB e procuradoria, na atual república autónoma Mari El, perto da cidade de Yoshkar-Ola. No primeiro mês do encarceramento perdeu 15 kg do peso. O seu processo não foi mencionado nem na imprensa soviética, nem na ocidental.

Como prémio pela sua colaboração com a investigação, Morozov foi condenado aos 5 anos de deportação, sem nenhuma pena prisional. Acreditando na sua impunidade e relação especial com KGB, exilado em Vorkuta, usando o gravador, gravava o romance “Arquipélago GULAG”, lido pelas rádios ocidentais. Depois passava a gravação ao papel. KGB soube do caso e Morozov foi novamente preso e condenado aos 8 anos, sem ter em conta os seus serviços à favor da segurança do Estado. Estive num campo penal, depois foi transferido para a prisão, possivelmente, as autoridades prisionais tentaram, novamente, recrutá-lo. Morozov estava doente e quebrado psicologicamente...
Em 3 de agosto de 1986, já com Gorbachev no poder, ele se enforcou numa cela da prisão de Chistopol, quando os companheiros de cela foram ao passeio no pátio prisional. Mark Morozov tinha 55 anos e a sua morte foi anunciada pela The New York Times.

O investigador do KGB Anatoly Trofimov que conduziu o caso Orekhov, fez uma carreira de sucesso. Ele chegou, na era Yeltsin ao cargo de Vice-Diretor do FSK (Serviço Federal de Contra-inteligência – sucessor do KGB, de seguida fundido no FSB), era o chefe da Direção do FSK em Moscovo e na região de Moscovo. Em 1997, já com a patente de coronel-general, foi demitido por “violações graves no desempenho profissional”. Se tornou o chefe do serviço de segurança de uma instituição financeira russa de reputação duvidosa e, eventualmente, foi vítima de ajustos de contas entre os grupos da máfia. Em abril de 2005, ele e a sua esposa foram mortalmente baleados, por um grupo de desconhecidos, perto da entrada de sua casa.

continua...

Bibliografia:
Ler mais e/ou comprar
Igor Gamayunov, “Bog iz gliny” (Deus de barro), MIK, Moscovo, 2013 (trecho em russo);
Ler mais
Alexander Podrabinek, “Dissidenty”, (Dissidentes), AST, Moscovo, 2014 (trecho sobre Viktor Orekhov em russo).

Bónus

Bolsonaros, Brasil Paralelo, “KGB e FARC”:

sexta-feira, abril 20, 2018

Belarus e Rússia: a guerra contra Internet

Google Made in URSS
Pelo quinto dia consecutivo Rússia está tentando bloquear no seu território o serviço do messenger Telegram, bloqueando cerca de 20 milhões de endereços IP, pertencentes ao Amazon e Google, atingindo várias empresas comerciais, desde Museu do Kremlin ao MasterCard.
           
Para já, Telegram funciona normalmente, mas diversas outras empresas comerciais, à funcionar na Rússia, sentem os “danos colaterais”, último dos quais o filial russo do banco Raiffeisen.

No dia 13 de abril o tribunal moscovita do bairro Tagansky decidiu o bloqueio do serviço do Telegram na Rússia, o bloqueio começou, de facto, no dia 16 de abril. A decisão foi tomada na sequência da recusa do Telegram de entregar ao FSB as chaves de descodificação que permitiriam aos serviços secretos russos ler a correspondência dos usuários, segundo a lei antiterrorista russa (conhecida como “lei Iarovaia”), adotada pela Duma estatal em junho de 2016.
Serviço federal RosComNadzor
Surgem várias questões. Porque e para que o regulador russo da Internet, RosComNadzor decidiu se aventurar na tarefa dificilmente realizável? Ou mesmo não realizável. O regulador poderia levar caso ao tribunal, ganhar e esquecer a sua aplicação prática, ignorando o facto de que o serviço funcionará através dos servidores independentes proxy/VPN. No entanto, RosComNadzor se lançou numa tarafa inglória que possivelmente poderá ser resolvida de forma técnica, provocando as perdas e gastos enormes, suportados pelos provedores russos da Internet e naturalmente pelos seus usuários. Quo vadis?, perguntam os russos, e logo surgem as teorias de conspiração, por exemplo uma que explica que FSB está contra Telegram porque tem medo de que o seu criador irá aplicar a tecnologia na criação e propagação de uma nova moeda virtual incontrolável pelo estado russo.

A própria capacidade do estado russo de combater as ameaças reais online foi posta à prova. Telegram foi considerado um recurso hostil que se recusa à acatar as ordens judiciais russas. No entanto, por enquanto, todo o poder do estado russo foi incapaz de parar as suas actividades supostamente “ilegais”.

Na Rússia atual estão presos ou estão sob investigação judicial cerca de duas centenas de cidadãos, por causa das suas curtidas ou repostagens de matéria online. O caso Telegram mostra que entre combater os adversários fortes e perseguir os seus próprios cidadãos, os serviços russos sempre farão a escolha mais fácil.

Os danos colaterais
Na segunda metade do dia 16 de abril, RosComNadzor começou bloquear os endereços IP da Amazon e Google. As duas empresas oferecem os serviços de hosting em que página alojada nos seus servidores recebe o respetivo endereço IP. O regulador russo começou bloquear não os endereços individuais, mas as sub-redes, por exemplo o bloqueio do endereço 52.58.0.0/15 significa o bloqueio de mais de 130.000 endereços IP «vizinhos».
Os departamentos regionais da Procuradoria, RosGuardiya e MinInterior russos lançam
os concursos públicos de aquisição dos serviços de servidores independentes proxy/VPN 
Na tarde do mesmo dia já foram bloqueados milhões de endereços IP, RosComNadzor emitiu a ordem aos provedores da Internet russos de bloquear várias sub-redes da Amazon (mais de 800.000 endereços) e uma sub-rede da Google (mais de 1 milhão de endereços IP). Nos 5 anos anteriores, RosComNadzor mandou colocar na «lista negra» entre 100.000 à 80.000 endereços IP.

O chefe do RosComNadzor, Alexander Zharov explica o bloqueio da Amazon pelo facto de que Telegram usa as suas capacidades para driblar o bloqueio técnico russo, sobre os servidores da Google nada foi dito oficialmente.
Os bloqueios em massa criaram diversos problemas aos usuários da Viber, escola de língua inglesa online Skyeng, lojas “Dixie” e páginas de várias empresas russas, as pequenas lojas online e serviços de entregas que usam os servidores Amazon. Foram reportadas falhas no funcionamento dos sistemas POS dos supermercados russos e no “Burger King”. O próprio Telegram, funciona na Rússia razoavelmente bem, mesmo sem uso de servidores proxy/VPN.

Bloqueio falhado
Como explicou a publicação online russa iGuides, Telegram usa o sistema de push-notificações que são enviados pelos servidores Google, Apple ou Microsoft. Juntamente com essas notificações, Telegram pode enviar aos seus usuários os novos endereços para driblar os bloqueios. Para impedir isso, RosComNadzor terá que bloquear todas as push-notificações de todas as plataformas móveis.

Ao mesmo tempo, RosComNadzor começou a sua luta contra os servidores proxy/VPN. Na tarde do dia 16 de abril, o regulador russo exigiu aos provedores russos o bloqueio destes servidores independentes, afirmando que os mesmos são usados para organização dos motins em massa e apelos ao extremismo.
RosComNadzor avisa os pais que através dos servidores proxy/VPN
os filhos podem ser recrutados pelos terroristas (numa escola pública russa)
RosComNadzor também exigiu que Telegram seja retirado das lojas online de aplicações, prometendo exigir isso ao Apple (App Store), Google (Google Play) e à loja não oficial de aplicações de Android – APK Mirror.

... e na Belarus
No dia 19 de abril, o Parlamento da Belarus, em primeira votação (98 votos à favor e 2 contra), aprovou as alterações à lei sobre os meios de comunicação social. A nova lei prevê o bloqueio das páginas sem a decisão judicial, os comentaristas dos fóruns deverão confirmar a sua identidade por meio de uma SMS, e as páginas online devem receber a certificação estatal (por enquanto voluntária).

De acordo com as emendas, as páginas da Internet que não forem credenciadas, não terão os mesmos direitos das certificadas, por exemplo, os seus correspondentes não poderão usufruir dos mesmos direitos que outros jornalistas (os órgãos estatais terão o direito de recusar a sua acreditação).
As alterações também afetarão os proprietários das páginas/sítios. Será da sua responsabilidade identificar os usuários do site, incluindo os comentaristas dos fóruns. As autoridades assumem que a identificação será feita via SMS. A lei prevê a possibilidade de bloquear as redes sociais.

A lei também proibirá a distribuição de produtos da imprensa estrangeira na Belarus sem autorização, e os canais de TV terão que garantir o volume dos programas de televisão da produção belarusa não inferior à 30% da sua grelha de transmissão.

Apresentando o anteprojeto de lei no parlamento, o Ministro da Informação da Belarus, Alexander Karlyukevich, justificou a adoção de emendas à lei pelas várias razões, incluindo a de “harmonização da legislação belarusa com as leis da Rússia e do Cazaquistão”. Ele também acrescentou que estava atento ao bloqueio russo do Telegram, informa a página Polit.reactor.cc.

A língua e identidade ucraniana eram predominantes na Kuban até a década de 1930

Moscovo fica indignada com qualquer sugestão ucraniana de que a região de Kuban tenha mais em comum com Ucrânia do que com a federação russa, suprimindo o facto de que até a década de 1930 o ucraniano era a língua oficial, junto com o russo, e que muitos cossacos de Kuban consideravam-se a ser ucranianos étnicos.

De fato, como diz um artigo num portal histórico russo, tudo isso levanta a questão: “Por que a Kuban se juntou à Rússia em 1924?” Uma pergunta que a página responde, explicando que há mais motivos para que os ucranianos verem esta região como ucraniana do que para os russos verem a Donbas como região russa (http://russian7.ru/post/pochemu-kuban-v-1924-godu-prisoedinilas/).

O entreposto cossaco de Kuban surgiu em 1696 quando um grupo dos cossacos de Don participou da ocupação da região de Azov. Mais tarde, em 1708, esse grupo foi conhecido pelo seu nome atual. No século XVIII, quando as forças russas se deslocaram para o sul do império, a Kuban teve a maior presença russa, mas não foi inteiramente russificada, e os cossacos de Kuban mantiveram a sua identidade distinta.

Essa identidade refletia suas raízes ucranianas e russas, embora “até o começo do século XX, uma consciência do estatuto social dominasse no meio cossaco sobre a ideia étnica. Isso começou a mudar no final do século XIX, quando o ministério militar russo decidiu eliminar esse estatuto.

Mas outra questão para resolver, eram as atitudes do crescente número de pessoas no meio cossaco de Kuban que não estavam ligadas ao serviço militar, mas estavam envolvidas em trabalhos intelectuais como jornalistas, educadores e assim por diante. Influenciadas pelas forças nacionalizadoras em torno deles, esse grupo começou a articular a ideia de “uma nação cossaca”.

Um equilíbrio instável entre os dois foi mantido até ao golpe bolchevique que os cossacos de Kuban rejeitaram. “A Rada (Conselho) de Kuban declarou a formação de uma República Popular Independente do Kuban”, declarando que eles estavam preparados para se unir à Rússia, mas apenas numa base federal. A questão permanece em aberto, sobre que tipo da Rússia os cossacos tinham na mente. “Isso não estava claro”.

Em março de 1918, a Rada de Kuban teve que se retirar da cidade de Yekaterinodar (atual Krasnodar) e se unir às forças anti-bolchevique do Exército Voluntário russo do general Lavr Kornilov, que após a sua morte foi substituído por general Anton Denikin. Os dois lados assinaram um acordo de cooperação, mas como ainda não tinham forças significativas, isso permaneceu mais uma declaração de intenções do que uma descrição da realidade.
Ler mais: Ucranianos de Kuban
A situação mudou mais tarde naquele mesmo ano o Exército Voluntário russo ocupou a maior parte da Kuban. Como resultado, os cossacos de Kuban se tornaram a força de base mais importante das forças de Denikin. Mas muito rapidamente os conflitos surgiram porque os cossacos viam a força de Denikin como representante da velha ordem [czarista] e o pessoal de Denikin via os cossacos quase como ucranianos.

Essas atitudes reduziram as chances de cooperação, e só foram superadas quando já era tarde demais, quando o Exército Vermelho estava entrando na Kuban e levando os exércitos monárquicos “brancos” à emigração. Nos primeiros meses de 1920, as instituições governamentais de Kuban foram “de fato liquidadas” pelos bolcheviques e a região foi incorporada na Rússia soviética (futura RSFSR).

Mas nos primeiros 12 anos de poder soviético, a língua ucraniana permaneceu oficial ao lado do russo, e os cossacos de Kuban continuaram a se identificar em grande parte como ucranianos em termos étnicos. Em 1924, Moscovo incluiu a Kuban na região (kray) do Cáucaso do Norte o “que tornou possível a posterior russificação” dos cossacos de Kuban. Em 1932, o ucraniano perdeu o seu estatuto oficial naquela região.

Assim, “durante o primeiro quartel do século XX, a Kuban evoluiu de uma região do império russo com a posição especial do estatuto cossaco, para se tornar um sujeito regional da RSFSR, passando por períodos específicos de estado cossaco e pela experiência da autodeterminação nacional-cultural ucraniana no quadro da sociedade soviética”.

Esta história não significa que a Kuban deveria ser anexada à Ucrânia, da mesma forma, que os reassentamentos étnicos organizados pelo Estaline após Holodomor na Donbas não significam que aquela região deveria ser separada da Ucrânia. Mas o que isso significa é que os argumentos ucranianos devem ser levados a sério, em vez de serem ignorados, como se costuma a fazer.

Entidade de jornalistas desmonta notícias falsas russas

O grupo ucraniano StopFake surgiu em 2014 e é uma organização independente, criada por jornalistas voluntários para enfrentar o bombardeio online de propaganda russa.

por: Fernanda Ezabella, Folha.uol.com.br

VANCOUVER (CANADÁ). Em julho de 2014, auge do conflito na Ucrânia, o Exército entrou numa pequena cidade ao leste do país, reuniu a população na praça central e realizou a crucificação do filho de três anos de um militante separatista pró-Rússia.

Uma [falsa] refugiada relatou o caso para uma emissora [televisiva] russa e a história tomou conta das redes sociais [e da psique coletiva russa].

Só que era tudo mentira. Tratava-se de uma das primeiras fake news a serem desmascaradas pelo grupo StopFake, uma organização independente criada por jornalistas voluntários para enfrentar o bombardeio online de propaganda russa.

“A Ucrânia foi um laboratório de testes para ferramentas de notícias falsas, fomos as primeiras vítimas. Estes métodos foram depois usados em toda a Europa”, disse à Folha Olga Iurkova, 36, uma das co-fundadoras que apresentou o projeto no TED 2018, evento de palestras que se encerrou neste sábado (14) em Vancouver, no Canadá.
A co-fundadora do StopFake.org, Olga Yurkova realizou palestra na conferência TED em Vancouver
foto @Glenn Chapman - 10.abr.18/AFP
“No começo, achava que o site ia existir por três meses e resolveríamos o assunto. Meu sonho é que ele não seja mais necessário”, continuou Iurkova, que hoje também lidera a cobertura num jornal local sobre a região de Donbas, pertencente à Ucrânia, e a Crimeia, anexada pela Rússia em 2014.

Em quatro anos, o StopFake descobriu cerca de 1.500 notícias falsas, incluindo fotos e vídeos. O site publica entre duas por dia ou uma por semana, dependendo do grau de dificuldade. “As fake news estão ficando cada vez mais sofisticadas”, disse.

O site publicado em 11 línguas (ainda sem português) não tem escritório próprio e os cerca de 30 jornalistas se encontram virtualmente. Nas reuniões diárias, em vez de sugerir reportagens para escrever, eles sugerem textos que querem desmascarar.

O foco é na imprensa russa, e não em criações apócrifas. As mentiras com maior alcance e sobre assuntos importantes ganham mais atenção. Muitas vezes o trabalho é puramente investigativo, checando placas de carro, endereços, documentos do governo ou simplesmente buscando no Google a qualificação de “especialistas” [peritos].

NARRATIVAS
A propaganda estatal soviética da II G.M., que usava o tema de crianças assassinadas
para exortar os cidadãos soviéticos à "se vingar sem compaixão aos assassinos hitleristas de crianças"
“Identificamos 18 narrativas criadas usando notícias falsas, como Ucrânia sendo um Estado fascista ou um Estado falido ou um Estado liderado por um presidente que chegou ao poder com um golpe de Estado”, disse Iurkova em seu discurso. “Nós provamos que não é jornalismo ruim. É um ato deliberado de desinformação”.

O site traz explicações e ferramentas para verificar imagens e afirma já ter treinado mais de 10 mil pessoas, entre jornalistas e professores escolares e universitários.

Em 2017, o país foi palco da edição do concurso musical Eurovisão, festival que reúne 43 países, alvo de inúmeras reportagens falsas.

“Era a chance de o país mostrar que está bem, que não somos fascistas ou nazistas. Mas a propaganda russa foi forte”, afirma a jornalista Olga, cujo próprio pai é devorador de fake news. “Tento explicar sempre para ele. A população mais velha é um grande problema”.

Blogueiro
Galina Pyshniak contanto horrores sobre criança crucificada
A fake sobre menino crucificado foi contada, em primeira pessoa, pela cidadã ucraniana Galina Pyshnyak, de 39 anos, moradora de Slavyansk e esposa de um polícia local que após a tomada da cidade pelos terroristas se tornou separatista. A fake foi disseminada pela jornalista russa, Yulia Chumakova, até hoje chefe do Bureau do sul da Rússia do 1º Canal estatal russo que aparentemente, se sente bem consigo mesma.
Yulia Chumakova, a jornalista propagandista russa
Apesar de estória ser mais que claramente uma notícia falsa, nem Chumakova, nem o 1º canal russo a desmentiram, nem pediram publicamente qualquer desculpa pelo sucedido. Embora é mais que provado (pelos depoimentos de mercenários e terroristas russos) que centenas, senão milhares de russos foram à Ucrânia para morrer e matar os ucranianos, devido essa notícia falsa. Centenas ou mesmo milhares de ucranianos e russos morreram por causa de uma mentira deliberada da TV estatal russa...
Galina Pyshniak: com marido e filhos e depois da guerra russo-ucraniana
O tema da criação da notícia falsa do alegado menino crucificado até faz parte do enredo da 7ª temporada da famosa série americana Homeland. No 5º capítulo, chamado “Active Measures”, uma notícia falsa é criada e plantada nas redes sociais americanas pelo tenente-coronel do GRU, Yevgeny Gromov, interpretado pelo ator de origem russa Costa Ronin (o agente do KGB Oleg na série The Americans). Saul Berenson, o novo chefe de Segurança Nacional, se recorda do caso ucraniano e isso significa interferência russa na política interna americana, através da criação de notícias falsas.

quinta-feira, abril 19, 2018

União Soviética — o país de coisas roubadas (18 fotos)

União Soviética, vista pelos seus fãs mais ortodoxos como um país de tecnologia avançada, na realidade confrontava o inteiro mundo civilizado roubando as suas realizações técnicas e tecnológicas. Cremos que todos estão cientes como a história acabou para URSS.

Uma grande parte da produção industrial na União Soviética – de blindados e aviões aos apitos de crianças foi completamente copiado dos originais ocidentais. Por conveniência, dividimos o texto de hoje em algumas seções, mas tenham na mente que esta é apenas uma ponta do iceberg – o números de dispositivos “batidos” é centenas vezes superior.

As armas

Mesmo as coisas mais sacras aos fãs da URSS, como os equipamentos militares e armas soviéticas, eram copiadas dos análogos ocidentais. O vetor sempre era o mesmo - o dispositivo aparecia na posse dos capitalistas marvados, por exemplo, nas mãos dos finlandeses e, de seguida, o mesmo, de repente aparecia na União Soviética – “inventado” por algum ferreiro talentoso de uma aldeia aonde “Judas perdeu as botas”, graças ao governo soviético que lhe ofereceu todas as oportunidades para realizar o seu talento socialista.

Aqui, por exemplo, a sub-metralhadora PPD-40, criada pelo Degtyaryov em 1934 que serviu, na verdade, de protótipo para a mais famosa PPSh, que se tornou a sub-metralhadora soviética mais fabricada no decorrer da II G. M.

Eis a sub-metralhadora finlandesa Suomi KP/-31, criada três anos antes – em 1931. Diga-me, você vê uma diferença fundamental nestas armas? Realmente podemos reparar que sistema de fixação de carregador (em forma de disco) é claramente menos confiável na arma soviética – o disco não está embutido no corpo de arma, como nas sub-metralhadoras finlandeses, e é montado numa trava externa, que pode facilmente quebrar ou falhar em combate.

Outro exemplo é a espingarda/fuzil de assalto Kalashnikov. A 1ª foto mostra o AK, criado em 1947 (e adotado pelo exército soviético em 1949), na 2ª imagem – o Sturmgewehr 44 (StG44), também conhecido como “espingarda/fuzil de Schmeisser”, fabricado em 1944 em cerca de 450.000 unidades. Os fãs da URSS não se cansam de argumentar que “são duas armas fundamentalmente diferentes”, mas não deixam de ser muito parecidas.


Além disso, após a II G.M. Hugo Schmeisser e diversos seus engenheiros foram levados da Alemanha para a cidade soviética de Izhevsk, onde trabalharam, em uma fábrica fechada, conhecida como “sharashka”, onde no mesmo tempo trabalhava o jovem Mikhail Kalashnikov, o secretário da célula local da juventude comunista – Komsomol. Após a saída de Schmeisser em 1947 para a Alemanha, o “génio soviético”, Kalashnikov, nos próximos 66 anos não criou nenhuma arma fundamentalmente nova, absolutamente nada.


Bem, as sub-metralhadoras e espingardas/fuzis de assalto eram copiadas. Mas pelo menos as pistolas soviéticas eram originais? O amplamente conhecido PM, ou a pistola Makarov (que ainda hoje é a principal pistola pessoal da polícia e do exército de muitos países pós-soviéticos) também foi copiada. Pistola Makarov, “criada” em 1948:

E pistola alemã Walther PPK, fabricada em 1931. O princípio de funcionamento, dimensões, localização dos principais pontos-chave – tudo é quase idêntico:

Eletrodomésticos

Fãs soviéticos costumam dizer, vejam, que lindos eletrodomésticos eram fabricados na URSS! Gostam especialmente do aspirador “Chayka” (Gaivota), que tinha uma forma alongada, uma espécie de patins para mover-se sobre os tapetes e uma silhueta geral “cósmica”, bastante elegante para a sua época:


Só que “Chayka”, fabricado na URSS em 1963, é quase completamente copiado do aspirador holandês “Eatonia”, fabricado nos Países Baixos ainda em 1942 (!) para a cadeia de lojas canadenses T. Eaton, daí o nome. “Chayka” é uma cópia fiel ao original ocidental, mantendo até a cor, a forma do cabo, a forma dos patins e o design da cobertura cromada com o logótipo:

Os fãs da URSS gostam de se lembrar de aparelhagens musicais soviéticas – dizem eles, que URSS produzia o som quente de lâmpadas e que as colunas de som soviéticas S90 até hoje são melhores do que os análogos ocidentais. Vejam, por exemplo, o gira-discos “Estónia-010”, fabricado em 1983. Botões prateados elegantes, design minimalista íngreme, tudo como deve ser:

E vejam o gira-discos japonês Sharp Optonica RP-7100, fabricado em 1981. Está vós lembrar alguma coisa? Certamente os fãs da URSS poderão argumentar que é uma mera coincidência ;-)

Mesmo uma coisa simplória, como a máquina de barbear elétrica, foi roubada. Aqui está a máquina soviética “Agidel”, fabricada em 1967 na cidade de Ufa:

E aqui temos a máquina Philipshave, fabricada dois anos antes, em 1965. Por favor, note que foi copiado tudo, incluindo a cor do foro interno da sua caixa:

Viaturas

A URSS costumava comprar as linhas inteiras de produção de viaturas, fabricando análogos completos de viaturas ocidentais – por exemplo, o VAZ (Lada/Zhiguli) 2101, que de facto, é a cópia fiel do “Fiat” italiano.

Mas também costumava roubar a tecnologia, copiando algumas marcas de forma ilícita. Vejamos, o mini soviético ZAZ-965, construído em 1960:

... e Fiat-600, criado em 1955 (cinco anos antes). Mais uma coincidência?

Mais um “Zaporozhets”, o orelhudo ZAZ-966 (fabricado na Ucrânia soviética entre 1967 e 1972).

... é quase uma cópia absoluta do compacto alemão NSU Prinz IV, fabricado em 1961:

Ligeiro Gaz-21 “Volga”, lançado em 1956:

O seu original, Ford Mainline, que apareceu em 1952:

Fotos: drive2.ru | avito.ru | yandex.ru | Texto: Maxim Mirovich

Em vez de um epílogo.

Por acaso, não conhecemos nenhum exemplo do oposto, em que alguma novidade primeiramente aparecer na União Soviética, e depois fosse copiada no Ocidente. E vocês, leitores, conhecem algum caso destes?