terça-feira, novembro 14, 2017

Superespecial: Ayn Rand, sua vida e obra

foto @observador.pt
60 anos depois da edição original, começou a ser publicada em Portugal a Bíblia dos libertários, neo-cons e alt-righters americanos: “A revolta de Atlas”, de Ayn Rand.

Independentemente dos méritos ou deméritos literários e ideológicos dos livros de Ayn Rand, autora vendeu um total acumulado de 29 milhões de livros em todo o mundo (dados de 2013), escreve Observador.pt

Quem é John Galt?
“A Revolta de Atlas”, de Ayn Rand (Marcador)
A revolta de Atlas passa-se numa realidade alternativa que, embora esteja num estágio de desenvolvimento tecnológico similar ao da época em que foi escrito – década de 1950 – nos mostra um mundo em declínio: fábricas devoradas pela ferrugem, estradas rachadas e invadidas pela vegetação, lojas fechadas (mesmo nas ruas mais buliçosas de Nova Iorque), regressão dos padrões civilizacionais, com as pessoas fora das grandes cidades a viver em moldes medievais, contentando-se em praticar agricultura de subsistência e vivendo alheadas do que se passa fora do seu exíguo mundo de hortas miseráveis e casas decrépitas, mobiladas com bugigangas pilhadas aos edifícios abandonados da cidade-fantasma mais próxima.
1ª edição americana de A revolta de Atlas
O livro (ou pelo menos a sua primeira parte, sobre a qual se baseiam estas considerações) centra-se exclusivamente nos Estados Unidos da América, sendo as menções ao resto do mundo apenas passageiras, mas percebe-se nas entrelinhas que “lá fora” a situação é ainda pior do que nos EUA. O que terá empurrado a civilização para este definhar inquietante? Não foi uma guerra mundial, nem a queda de um meteorito ou uma pandemia devastadora, dir-se-ia que a civilização está a sucumbir simplesmente à abulia, à extinção da vontade de progresso, ao desleixo, ao “deixa andar” – e sempre que alguém questiona porque está o mundo como está e porque se arrastam as pessoas neste torpor, alguém retorque “Quem é John Galt?” 
Um eco moderno de A revolta de Atlas | foto @observador.pt
Ninguém sabe quem é John Galt e a frase não é sequer uma pergunta, é simplesmente uma expressão sarcástica de indiferença, passividade e aceitação de que há questões para as quais não há resposta e problemas para os quais não há solução.

O antecedente: The fountainhead

A revolta de Atlas retoma, em parte, a dicotomia já exposta no outro romance de grande sucesso de Rand, The Fountainhead, publicado 14 anos antes. De um lado está o arquitecto Howard Roark, um visionário sobredotado, determinado, incorruptível e inflexível, do outro uma corja de conformistas, incompetentes e parasitas, liderada pelo arquitecto Peter Keating e pelo critico de arquitectura (e socialista) Ellsworth Toohey. Ou seja, é também uma história da luta do génio solitário e com uma ética de trabalho irrepreensível contra a carneirada ronhosa e traiçoeira, do inovador contra os imobilistas, do indivíduo excepcional contra a pulsão colectivista que o quer sufocar.
Para escrever “A revolta de Atlas”, Rand fez também pesquisa sobre a operação da companhia ferroviárias New York Central. Na imagem, uma das locomotivas emblemáticas da companhia, a futurista e aerodinâmica NYC Hudson, desenhada em 1938 por Henry Dreyfuss para puxar o comboio 20th Century Limited
The fountainhead é menos esquemático e demonstrativo do que A revolta de Atlas e são nele menos frequentes as representações caricaturais do socialismo. É também mais fácil sentir simpatia pela luta de Howard Roark para afirmar a sua visão artística e defender a sua integridade, do que pelos empresários de A revolta de Atlas que crêem que ganhar dinheiro é “a maior virtude de todas” e devotam a isso toda a sua energia.

O que Rand pensa sobre literatura

Para Rand, o sucesso comercial é o critério supremo: a personagem Balph Eubank é ridicularizada por ser “considerado o líder literário da actualidade, mas nunca escrevera um livro que tivesse vendido mais de 3.000 exemplares” (pg. 183). O mercado é o único juiz do valor do que é produzido, sejam carris de caminho-de-ferro – como deixa claro a personagem Hank Rearden (pg. 238) – ou livros.

[Trecho do documentário Ayn Rand: A sense of life (1996), realizado por Michael Paxton]


Como se faz uma inimiga figadal do socialismo

A juventude de Ayn Rand encerra uma explicação para o seu repúdio do colectivismo e pela sua defesa feroz do individualismo. Rand nasceu a 2 de Fevereiro de 1905 numa família judia de São Petersburgo e começou por chamar-se Alisa Zinovyevna Rosenbaum. O pai era proprietário de uma farmácia, a família tinha uma vida desafogada e Alisa andou numa das melhores escolas da capital russa, o Ginásio Stoiunina, onde a sua amiga mais chegada era Olga Nabokova (a irmã mais nova de Vladimir), para cuja mansão familiar era convidada amiúde. A revolução de Outubro de 1917 pôs termo a essa vida: o pai viu-se expropriada da farmácia e a família ficou arruinada, passando por muitas privações. Alisa, que foi uma aluna brilhante, estudou História e Literatura na Universidade Estatal de Petrogrado (o nome dado a São Petersburgo em 1914), mas o facto de provir de uma família “burguesa” fez com que fosse expulsa da universidade e só a custo conseguisse terminar o curso. Ainda assim, a passagem pela universidade terá sido decisiva na sua formação e mais tarde apontaria o professor Nikolay Lossky, que defendia um sistema filosófico a que chamava “personalismo intuitivo”, como uma influência determinante na evolução do seu pensamento.

[Excerto de entrevista de Ayn Rand por Mike Wallace, em 1959: Rand afirma ter desenvolvido o seu sistema filosófico por si mesma, sem necessidade de recorrer a outro filósofo para lá de Aristóteles]


Rand frequentou em seguida o Instituto Politécnico Estatal de Artes Cinematográficas de Leninegrado (a cidade voltara a ser rebaptizada) e foi com a ambição de ser guionista (por esta altura já adoptara o pseudónimo literário Ayn Rand) que desembarcou em Nova Iorque a 19 de Fevereiro de 1926, munida de um visto que lhe fora concedido para visitar familiares que se tinham instalado nos EUA.
Ayn Rand em 1925 | @Wikipédia
Porém, Rand não fazia tenção de regressar ao país natal: o seu fascínio era a América. As portas de Hollywood não se abriram de par em para ela e teve de contentar-se com biscates como figurante, revisora de guiões e responsável pelo guarda-roupa. Em 1932 conseguiu vender um guião à Universal, mas o filme nunca foi rodado. 1934 foi o ano em que uma peça de sua autoria, Night of January 16th, teve estreia em Hollywood e depois na Broadway e em que escreveu We the living, que foi recusado por várias editoras antes de ser publicado em 1936 – é um romance de inspiração autobiográfica, que narra a luta árdua pela sobrevivência de Kira, a filha de uma família burguesa na Rússia pós-revolucionária, cujo espírito independente a faz recusar a sujeição aos moldes impostos pelos bolcheviques. É menos afortunada do que Rand, pois ao tentar fugir do país é morta por um guarda fronteiriço. A 1ª edição rendeu a Rand cerca de 100 dólares, mas ao longo dos anos, a reboque do sucesso dos outros romances, o livro vendeu 3.5 milhões de exemplares.
1ª edição americana de We the living
Nos anos 1940, o envolvimento de Rand na campanha eleitoral republicana colocou-a em contacto com pensadores e autores libertários e defensores da economia de mercado, nomeadamente com o economista austríaco Ludwig von Mises – é bom lembrar que na primeira metade dos anos 1940, em resultado da imperiosa necessidade de fazer face à Grande Depressão e, depois, de combater a Alemanha e o Japão, a economia dos EUA era fortemente centralizada, mais do que alguns países ditos socialistas o foram em períodos de paz.
“Goddess of the market: Ayn Rand and the American right” (2009), uma biografia de Rand por Jennifer Burns, que enfatiza a influência do pensamento de Rand sobre os movimentos libertários e conservadores nos EUA
Em 1943, após oito anos de escrita e rejeições por uma dúzia de editoras, surgiu nas livrarias The fountainhead. Após um arranque lento, o “romance filosófico” (a designação é da própria Rand) começou a trepar nos tops de vendas ao longo de 1944-45 – vendeu até hoje 6.5 milhões de exemplares e está traduzido em 20 línguas.

[Trecho de “The fountainhead”]


[Excerto de “The fountainhead”: O conselho de administração do Security Bank of Manhattan tenta convencer Roark a suavizar o projecto da nova sede, que acham “demasiado diferente, demasiado original”, com uns “toques de dignidade clássica”. “Há sempre que fazer cedências ao gosto médio”, justificam eles. O indómito Roark recusa-se a transigir]


Depois de “A revolta de Atlas”

O sucesso de A revolta de Atlas – apesar das reacções frias da crítica literária – levou a que Rand proclamasse numa entrevista ser “o pensador vivo mais criativo” do mundo. Poderia pensar-se que o sucesso lhe dera volta à cabeça, mas em textos de 1946 já ela se gabava de que “criar uma abstracção nova e original e traduzi-la através de novos meios originais [de escrita ficcional] tanto quanto sei, sou só eu”.
John Galt ganhou finalmente um rosto: em Atlas Shrugged part III (2014) é o actor Kristoffer Polaha;
à sua esquerda, Laura Regan, no papel de Dagny Taggart | foto @observador.pt
A revolta de Atlas marca uma inflexão na carreira de Rand: daí em diante deixou de escrever ficção e consagrou-se aos ensaios e ao desenvolvimento e disseminação do Objectivismo, para o que contou com a ajuda do Ayn Rand Collective, um círculo íntimo de admiradores que rodeou Rand quando ela se mudou para Nova Iorque no início dos anos 1950.

[Trecho de “Atlas shrugged part I” (2011)]


Os leitores estão com Ayn Rand

A Reader’s List 100 Best Novels tem nos dez primeiros lugares 1) A revolta de Atlas, de Rand, 2) The fountainhead, de Rand, 3) Terra: campo de batalha, de L. Ron Hubbard, 4) O senhor dos anéis, de Tolkien, 5) Não matem a cotovia, de Harper Lee, 6) 1984, de Orwell, 7) Anthem, de Rand, 8) We the living, de Rand, 9) Missão Terra, de Hubbard e 10) Fear, de Hubbard.

[Trecho de Atlas shrugged part II: The Strike (2012)]


[Trecho de Atlas shrugged part III: Who is John Galt? (2014)]


E as elites políticas e empresariais também…

As posições de Rand em defesa do mercado livre e da redução da esfera de influência do Estado e a sua exaltação do génio individualista e do empresário visionário têm suscitado a adesão de muita figura grada de Silicon Valley e da “nova economia digital”: é o caso de Steve Jobs, para quem A revolta de Atlas foi (segundo o seu amigo e parceiro de negócios Steve Wozniak) um livro que norteou a sua vida; de Travis Kalanick, ex-CEO da Uber; de Peter Thiel, um dos primeiros investidores a apostar no Facebook e um apoiante de Trump; de Evan Spiegel, co-fundador e CEO da Snapchat e um dos mais jovens bilionários do mundo; ou de Mark Cuban, milionário dos media, dono da equipa de basquetebol Dallas Mavericks e um dos “tubarões” do programa Shark tank, que declarou em 2006 que The Fountainhead lhe moldou o modo de pensar e a atitude perante a vida.
Paul Ryan | foto @observador.pt
Paul Ryan, uma das figuras cimeiras do Partido Republicano e que ocupa hoje a posição de speaker na Câmara dos Representantes, declarou que cresceu com os livros de Rand e que foram eles que o levaram a abraçar uma carreira política. É um activo prosélito do Objectivismo, tendo oferecido um exemplar de A revolta de Atlas a cada membro da sua equipa e, como Rand, vê a Segurança Social como um sistema de inspiração socialista (note-se que, na sua boca e nos ouvidos dos seus eleitores, “socialismo” é uma palavra suja). Mais reveladora ainda é a declaração de 2009 em que Ryan vê a situação dos EUA e do mundo como saída de “um romance de Ayn Rand. Acho que Ayn Rand fez melhor do que qualquer outra pessoa, a justificação moral do capitalismo e que essa moralidade do capitalismo está hoje sob ataque”.

Ayn Rand e direita americana
Manifestação do Tea Party, em Chicago, 2009: um dos manifestantes identifica-se como John Galt,
um dos heróis de A revolta de Atlas
No seu último discurso público, em Outubro de 1981, no National Committee for Monetary Reform, classificou a administração de Ronald Reagan (que assumira a presidência em janeiro daquele ano) como uma “desgraça pavorosa”, acusou Reagan de pactuar com a Moral Majority (um lobby conservador) e os pregadores televisivos na tentativa de impor as suas ideias religiosas a outras pessoas e repudiou a sua intenção de “fazer os EUA regredir para a Idade Média através da união inconstitucional entre religião e política”, e apontou a contradição de Reagan alegar ser um defensor das liberdades e, ao mesmo tempo, ter a intenção de proibir o aborto.

[Último discurso público de Rand, em Outubro de 1981]


Ayn Rand e os eleitores americanos

Numa entrevista televisiva realizada pouco depois do discurso no National Committee for Monetary Reform, em 1981, Rand detalhou alguns aspectos da sua visão da situação política americana da altura: acusou os homens de negócios americanos de terem vergonha de terem enriquecido e de financiarem universidades que promovem propaganda anti-capitalista e reprovou Reagan por ter um pendor demasiado… socialista: “Não é o advogado adequado do capitalismo; ele não é a favor do capitalismo, defende uma economia mista”. E conclui Rand: “o público está farto do Estado social [Welfare State] e gostaria de regressar a um americanismo racional”.

[Uma das últimas entrevistas de Ayn Rand, com Louis Rukeseyer, em 1981]


Tem também ampla expressão – não só na América – a ideia – claramente transmitida em A revolta de Atlas – de que o capitalismo é a forma mais eficaz de gerar riqueza e que esta, mesmo que beneficie mais os capitalistas, acaba por espalhar as suas bençãos a toda a sociedade, enquanto o socialismo é tão obcecado com a redistribuição e a igualdade que acaba por coarctar e minar as iniciativas dos empresários visionários e debilitar a economia, condenando toda a sociedade à pobreza – uma pobreza que oferece o dúbio consolo de ser igualitária.

Sem comentários: